A Parábola dos Talentos (Mateus 25:14-30), na visão espírita, representa o uso responsável dos recursos divinos — materiais, intelectuais e morais — confiados a cada Espírito durante a reencarnação. Deus espera que multipliquemos essas capacidades através do trabalho e do bem, sendo a preguiça e o medo (enterrar o talento) causas de estagnação espiritual.
Mas há quem coloque o jargão religioso em discussão. O escritor Dan Foster discute, em um artigo na Medium, a interpretação vigente dessa parábola narrada em Mateus 25. "Porque, se Jesus queria dar uma imagem clara do caráter de Deus, essa parece uma escolha estranha. O senhor recompensa o lucro desenfreado, tira de quem tem pouco e elogia aqueles que multiplicam suas riquezas, enquanto condena quem simplesmente devolve o que recebeu", analisa.
O detalhe que muda tudo, segundo Foster
A primeira pergunta que começou a me incomodar foi surpreendentemente simples.
Quem nos disse que o mestre nesta história é Deus?
Ao crescer, essa suposição nunca foi questionada. Estava ali, em segundo plano, moldando silenciosamente o desenrolar da história. O mestre representava Deus. Os servos nos representavam. A lição era sobre se usávamos nossos dons da maneira correta.
Mas quando você desacelera e lê as palavras com atenção, a história fica mais difícil de ser arquivada de forma tão simples.
O terceiro servo descreve o senhor como um homem severo que colhe onde não semeou e ajunta onde não espalhou. Essa não é exatamente a linguagem que a maioria de nós usa quando fala de Deus. Soa mais como alguém que lucra com o trabalho alheio.
E o que é estranho é que o mestre não o corrige.
Quanto mais eu percebia esse detalhe, mais incomodado eu ficava com a maneira como sempre ouvira a história ser pregada. Porque, se Jesus queria dar uma imagem clara do caráter de Deus, essa parece uma escolha estranha. O senhor recompensa o lucro desenfreado, tira de quem tem pouco e elogia aqueles que multiplicam suas riquezas, enquanto condena quem simplesmente devolve o que recebeu.
No mínimo, é mais complicado do que uma simples lição sobre como descobrir seus talentos.
Essa tensão também não é algo que eu inventei. Assim que comecei a pesquisar, descobri que vários estudiosos respeitados do Novo Testamento já haviam se deparado com esse mesmo desconforto.
O estudioso do Novo Testamento William Herzog argumenta que muitas das parábolas de Jesus não são simples contos morais, mas histórias subversivas que expõem os sistemas econômicos e sociais de sua época. Em sua interpretação desta parábola, o senhor se assemelha menos a uma representação de Deus e mais a um rico proprietário de terras operando dentro de um sistema explorador. O terceiro servo, em vez de ser preguiçoso, pode estar agindo mais como um denunciante que se recusa a participar.
Outros estudiosos levantaram questões semelhantes. Especialistas em Mateus, como Warren Carter, apontaram como a linguagem de colher onde não se semeou reflete as realidades da riqueza e do poder das elites no mundo antigo. Sob essa perspectiva, a parábola começa a parecer menos um discurso motivacional sobre produtividade e mais uma história criada para incomodar os ouvintes.
Lembro-me de ter sentido alívio e inquietação ao perceber isso. Aliviado, porque significava que meu desconforto com a história não era falta de fé ou incapacidade de compreendê-la. Inquieto, porque significava que a maneira como eu ouvira a parábola ser pregada durante anos poderia ser apenas uma interpretação, e não a única.
E quando você admite essa possibilidade, a história muda.
Porque a questão deixa de ser: "Estou usando meus talentos da maneira adequada?"
E começa a surgir a pergunta: "O que exatamente Jesus está nos pedindo para observar aqui?"
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