O codificador da doutrina espírita, provavelmente, teria interesse em explicar a amiga de Fréderic Chopin, a questão das vidas múltiplas, nas quais o enredo do conto se desenrola, com as lembranças de vidas passadas, feitas por um vizinho, cujo nome frequentemente provocava risos: chamava-se Monsieuir Lechien, senhor Cachorro. Ele fazia piadas sobre essa sua nominação e não parecia nem um pouco incomodado.
O senhor Lechien dizia lembrar-se de suas encarnações anteriores. E as relacionava a uma escala que se graduava desde o reino mineral ao animal. A mais convincente, no seu modo de pensar, era a de uma vida de cachorro.
Por isso, surpreendia o seu modo de falar com um cão de estimação com o qual convivia, nessa existência humana. Ele o ensinava a evitar erros para não ter que perder o passo da evolução. No entender de Kardec, o espírito não retroage.
Guardadas as devidas reservas, o conto de Sand deve ter chocado meio mundo de anti-reencarnacionistas. Mas quando nos detemos a um mergulho na gênese do que é matéria, acabamos descobrindo que o princípio inteligente — a essência que dará origem ao espírito — realiza uma longa jornada de evolução, passando do reino mineral ao vegetal, animal, hominal (humano) e, finalmente, ao angélico.
Não é atoa que o
grande Leon Denis resume essa trajetória na esplêndida frase “A alma dorme
na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem".
O senhor Lechien, pelo que discorre George Sand, tinha
vislumbres da memória de algumas delas. E, por isso, nas conversas ao pé da
lareira, costumava ser desafiado a tecer essas recordações, como algo natural ao
espírito que atravessa fases evolutivas em busca de alcançar a promessa de que,
um dia, todos nós seremos anjos.

Comentários
Postar um comentário