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George Sand e o homem que diz ter sido um cachorro em outra vida

Imagem produzida por I.A. a partir de um pedido nosso

Texto de Nonato Albuquerque
 

Dei-me a admirar os textos de George Sand. Depois do interesse em saber o porquê de uma mulher usar um nome masculino em sua trajetória literária – descubro ter sido puro preconceito da sociedade da época, pois que as editoras abriam espaço apenas para a figura masculina - , fui levado por um impulso a conhecer sua obra. Confesso que me surpreendeu. Principalmente, “Os contos da avó” Amandine Aurore Lucile Dupin, esse seu nome de batismo. 

Ela dedicou seu último livro aos netos. E entre os textos, “Le Chien et la fleur sacrée”(O cão e a flor sagrada), onde a autora viaja na questão das vidas sucessivas, o que parece ter motivado Allan Kardec a lhe enviar um volume do “Livro dos Espíritos”.

O codificador da doutrina espírita, provavelmente, teria interesse em explicar a amiga de Fréderic Chopin, a questão das vidas múltiplas, nas quais o enredo do conto se desenrola, com as lembranças de vidas passadas, feitas por um vizinho, cujo nome frequentemente provocava risos: chamava-se Monsieuir Lechien, senhor Cachorro. Ele fazia piadas sobre essa sua nominação e não parecia nem um pouco incomodado. 

O senhor Lechien dizia lembrar-se de suas encarnações anteriores. E as relacionava a uma escala que se graduava desde o reino mineral ao animal. A mais convincente, no seu modo de pensar, era a de uma vida de cachorro. 

Por isso, surpreendia o seu modo de falar com um cão de estimação com o qual convivia, nessa existência humana. Ele o ensinava a evitar erros para não ter que perder o passo da evolução. No entender de Kardec, o espírito não retroage.

Guardadas as devidas reservas, o conto de Sand deve ter chocado meio mundo de anti-reencarnacionistas. Mas quando nos detemos a um mergulho na gênese do que é matéria, acabamos descobrindo que o princípio inteligente — a essência que dará origem ao espírito — realiza uma longa jornada de evolução, passando do reino mineral ao vegetal, animal, hominal (humano) e, finalmente, ao angélico. 

Não é atoa que o grande Leon Denis resume essa trajetória na esplêndida frase “A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem".

O senhor Lechien, pelo que discorre George Sand, tinha vislumbres da memória de algumas delas. E, por isso, nas conversas ao pé da lareira, costumava ser desafiado a tecer essas recordações, como algo natural ao espírito que atravessa fases evolutivas em busca de alcançar a promessa de que, um dia, todos nós seremos anjos.

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